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Aranha

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Ele carrega consigo uma aranha como mochila. Firmemente abraçada em suas costas, ela é sua bagagem, sua história. Não porque ele quer. O fato bizarro de possuir um monstro pregado em seu corpo lhe dá calafrios. Ele apenas não sabe tirá-la dali. Se soubesse tiraria, a deixaria bem distante. Se tivesse coragem de tocá-la, a abandonaria dizendo que não ajuda em nada, que somente atrapalha, que lhe causa repugnância a sua aparência, o seu toque, o seu peso. A deixaria em qualquer canto do mundo, contanto que fosse fora de vista. Ele, quem sabe, até mesmo já tenha sonhado com isso. Um devaneio sobre viver uma vida sem aranha-mochila onde pudesse repousar em qualquer posição para poder aliviar o seu cansaço. Contudo, mesmo nos sonhos a abandonada volta. O persegue. Sua rapidez com que retorna cria uma imagem horripilante. A aranha-mochila não suporta a ansiedade de sua separação, tão logo é pensada longe, já está novamente abraçada nele. Ele se pergunta como e quando isso começou. Levanta qu...

Parece que ninguém tem muito a dizer, afinal

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Como haveria eu de procurar as respostas nas formas da nuvens quando as promessas de comunicação verdadeira não passam de desejos da língua, ousadias quando o que se diz não é o que se faz e o que se sente? Enganos. Não se cruza uma ponte de palavras com os pés. Não se mente para si mesmo. Todo mundo somente está esperando pelo inverno e pela chuva. Essas são as notícias. Você pergunta, porém sobre isso ninguém parece ter muito o que dizer. erik rosa

A vida inteira

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    Com as pontas dos dedos, a princípio você nota a suavidade, o relevo macio de um rosto recém descoberto. Em seguida, o aroma doce que afaga os teus sensores olfativos, o cheiro que propulsiona o teu coração a bater mais forte. Depois, algo que ela diz lhe penetra os ouvidos como o mais eufônico dos sons, um deleite para quem não quer mais nada, a não ser estar ali. Por último, tuas pálpebras semi abertas captam uma paisagem e uma espécie de alucinação é projetada na retina, um desvario que toca, cheira, fala e vê. Então, em completa imersão, o tempo pára e a música toca. No pienso en ti sólo te siento pasando por mi como un dulce viento As quatro paredes do quarto, muito próximas uma da outra, parecem condensar a atmosfera sutil criada pelos dois corpos embalados pelo som da canção. As palavras trocadas vêm e vão, se tocam como formigas que se beijam antes de continuar o seu caminho. Os olhares atravessados anunciam a colisão dilacerante entre dois mundos, um fenômeno de u...

O mundo não é tão quieto como eu pensei que seria

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    Kairós, o meu gato preto, interrompe a minha escrita. Salta sobre o meu colo, morde vorazmente a ponta da minha caneta, se agita inteiro, balança, chacoalha. Quer atenção. Pede. Kairós, o tempo oportuno, o momento correto, o lugar certo, clama por atenção. Para Kairós todo instante é apropriado, auspicioso. Não há hora morta, minuto esgarçado pela contagem do tempo. Ele brinca, dá dentadas, corre, sempre na melhor das confluências. Quando me olha, mesmo com olhos de filhote que pouco viu ainda, parece-me mostrar algo importante, contar um segredo que suspeito jamais conseguir entender. Kairós aparenta não estar, mas ser feliz. Contente com o que ele tem para ser contente, o gatinho preto lança o rabo de um lado ao outro, como um pêndulo de um relógio antigo. Confesso: Kairós é esse gatinho todo negro para que eu não me sentisse mais tão só. É que o mundo não é tão calmo como eu um dia desejei que fosse. Kairós, à sua maneira, deixa o ambiente ainda mais agitado, barulhento...

Oscilações

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    Um susto. Um sobressalto. Era de manhã. Eu, depois de algumas horas, voltei a respirar voluntariamente, sentindo o ar matinal que permeava completamente o quarto de dormir. O sono fora intranquilo, agitado, perturbado por imagens difíceis de discernir. Despertei sem cerimônias devido ao estímulo abrupto. Encharcado de suor, como se tivesse sobrevivido a um afogamento. Mirei para o lado, só para ter certeza, só para garantir. Ela ainda estava ali. Levantei devagar, sem fazer ruído, coloquei um dos pés no chão, depois o outro. Sentado na beira da cama, estranhei profundamente o quão silenciosa era a minha vida diurna em relação à noturna, o quanto que, ao dormir e sonhar, parecia haver mais movimentos, balanços e oscilações do que no estado de vigília. A quietude do quarto, da casa, da rua, contrastando com o barulho dos tambores do sonho, da fuga. Depois de me erguer, segui aquele mesmo velho caminho. O banheiro, a água fria, o espelho. O espelho. A fuga do espelho. O corre...

Da vida ao papel

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Quando a diretora finalmente virou de costas e foi para a sua sala, passaram pela minha cabeça, como um relâmpago, os acontecimentos do dia até aquele momento. Ainda eram dez e pouco da manhã, mas, no que diz respeito aos meus dias corridos, pouco já basta para entender em qual solo estou me deslocando. O alarme desperta. São seis da matina, em ponto. Nem a força poderosa dos deuses poderia ser maior que a minha vontade de permanecer na cama, sentindo o calor, envolto no macio. Levo cerca de dez minutos para, então, conseguir pular da cama. O frio, que frio! Uma garoa lá fora. Esse é sempre o momento em que me pergunto por que diabos escolher o sul do sul como fuga dos meus problemas paulistas? Estou de pé sob a proteção da parada de ônibus. O clima riograndino obrigou-me a adquirir um sobretudo, caso contrário eu não faria frente à chuva e ao vento enquanto espero o motorista de sempre. Sou o primeiro a embarcar. Bons dias trocados, e então me sento no primeiro banco. Coloco meus fone...

Lusco-fusco

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Por volta das dezenove horas, quando as derradeiras faixas de luz solar encontram a sombra ainda tímida da noite, há o instante em que me sento em minha poltrona e realizo mentalmente o balanço do meu dia. De olhos fechados, percorro o meu passado mais recente e, ao desembocar no fim, sinto uma quase satisfação com a vida que levo. Uso o cansaço, sentido no corpo após o expediente de trabalho, para justificar o que faço diariamente, como se o desgaste na lâmina da espada do guerreiro pudesse legitimar o motivo de todas as vezes que ele encaminha-se para a guerra. Concentro-me na minha respiração e no som do vento lá fora. Por um minuto, ouço apenas o som do silêncio. Debruço-me para o lado e, com a ponta do dedo, aperto o play. Minha rotineira playlist do lusco-fusco começa a tocar ao meu redor. As notas espalhadas pelo espaço do aposento criam a aura de um descanso triste. A última luz amarela atravessa o vidro da janela e harmoniosamente toca a superfície do meu rosto, meus olhos per...

O azul e o vermelho

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No momento em que na rua, ao retornar para casa depois de pegar um cinema com a namorada, eu avisto umas luzes piscando loucamente, o meu coração, que antes estava tão aquecido, levemente se esfria, sai do seu ritmo normal e começa a bater depressa na medida em que vai gradualmente congelando. Uns cinquenta passos adiante, umas luzes azuis e vermelhas refletidas no muro ao dobrar da esquina causam-me uma desagradável sensação de alerta misturado com medo. Para mim, azul e vermelho juntos raramente significam coisa boa. A despeito do medo, eu posso me esquivar, trocar de direção, ir para casa por outro trajeto. Ainda dá tempo, é só fazer meia volta e me precipitar por uma das ruas paralelas, que assim eu consigo evitar o encontro com as luzes da sirene. Não. É este exatamente o meu caminho, pela luzes mesmo é que devo ir. Ainda que isso signifique qualquer coisa de horrível, é por ali que a minha vida se fará. É que nunca se sabe o que se sucederá ao virar a próxima curva. Neste instant...

A respeito da névoa rio-grandina

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Era para ter sido o meu terceiro ano na cidade de Rio Grande e ainda hoje sinto uma forte sensação de que poderia ser na verdade o trigésimo, a despeito das horas cada vez mais arrastadas e monótonas as quais eu preenchia com inúmeros afazeres ou com alguma instantânea diversão aqui e ali. Às vezes, principalmente quando, sob o Sol, eu passeava pela praia sentindo o calor da areia aquecendo os pés, um forte desejo de mudança e renovação tomava conta de mim e, então, me vinham vários devaneios sobre como poderia ser completamente diferente a minha vida caso eu estivesse em outro lugar qualquer que não fosse ali, naquela cidade. Em momentos como esse eu fixava o olhar na linha azul do horizonte e por um longo tempo tentava imaginar que tipo de vida seria a minha se eu tivesse decidido ir tentar a existência em outros cantos. Engraçado como, naquele tempo e mesmo agora, confesso, tenho tendência a pensar que o lugar onde alguém está determina de tal maneira a sua personalidade, num certo ...

Cura para o otimismo

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Aqui dentro, um quarto onde nunca a luz do Sol alcança diretamente. As paredes cinzas, numa das quais, por uma rachadura, penetra um mofo cor de pântano. Grades de aço nas janelas. A porta, trancada por fora, só é aberta em momentos predefinidos. Não posso sair. Uma mesa de metal gelado com um livro sobre ela. Cura para o Otimismo, de autoria irrelevante. Estico o braço e apanho-o. Abro aleatoriamente em uma das escassas páginas. A cabeça curva-se para baixo. Os olhos são levados pelas letras. Da absoluta solidão humana espera que surja o contentamento, a resoluta significação de que assim é que é, e de que é bom que assim seja. Você contando os grãos de areia na praia enquanto caminha para o carro a fim de retornar para casa. Algo cutucando a sua consciência pelo canto. Uma voz que não diz nada. Um barulho de relógio que não marca tempo nenhum. Você sem questionamentos, apenas deixando-se ir pelos pés autômatos. Livre do peso de qualquer Outro, sentindo-se apenas só, caminhando pela p...

Azul pastel

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Sob a luz do sol de uma manhã já envelhecida jaz numa pequena xícara de porcelana azul pastel o resto do café recém-passado, esquecido e deixado para trás pela chegada repentina de uma lembrança há muito não lembrada. Você, sentado na cadeira da ponta esquerda da mesa, ensimesmado e perdido nos próprios pensamentos, não consegue aproveitar a sensação de suave calor que o raio de sol provoca em seu rosto, já tão acostumado com o frio do sul. Absorvido pela imagem, você não move um músculo. Seus olhos não apontam para lugar nenhum. Uma mulher de cabelos originariamente crespos, mas que desde sempre se aperfeiçoou em diminuí-los e alisá-los, termina rapidamente de prendê-los e começa a preparar o café. Mais uma vez faz calor numa manhã que acabou de nascer. Você desperta do seu mais tranquilo sono ao som das louças batendo na cozinha, mas antes de se levantar fica deitado em silêncio por mais algum tempo a fim de se recordar onde estava pouco antes de dormir. Dos seus costumes infantis, o...

Como vai você?

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E-mails acumulam-se na caixa de entrada A mesma velha má postura Um sonho igual todas as noites O Sol escurecendo o mundo Uma gota a mais – uma a menos No oceano O jornal e o leite cancelados Ontem ouvi um sussurro frio Ao pé do ouvido Gostaria que fosse real Um segundo antes dela partir Do calor aparecer – As horas nunca mais terminaram E o gato não parou mais de olhar pela janela erik rosa

Senhores da tristeza

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     Nesta caminhada que costumávamos a chamar de vida, juntos ou separados, fizemos o que tínhamos de fazer. Vivemos como podíamos e, de fato, foi de uma dificuldade tremenda, mas enfim conseguimos gastar todos os nossos dias, todos os nossos momentos, até não sobrar mais nenhum. Uns de nós, desde o início, já sabiam onde iriam depositar toda a sua vitalidade, outros demoraram, um pouco ou muito mais, para inventarem alguma forma de estar por aí, e existiram também aqueles que morreram sem saber como viver, procurando em cada canto um onde e um porquê da vida. Mas, de maneira geral, todos nós desempenhamos perfeitamente bem a tarefa de usar e aproveitar a vida – uns chegaram até ao ponto de abusar dela. Pode-se dizer então, depois de avaliarmos tudo, que a nossa existência foi um sucesso. Não houve nada que não tenha sido feito, nós encostamos em tudo, olhamos para todas as direções, sentimos na língua os mais diversos sabores, nossos corações mergulharam nas mais profun...

O planeta pálido

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     É como se eu não devesse ter jamais existido. Tampouco esse planeta inteiro. Água e terra, montanhas e florestas, são coisas que existem apenas na superfície. Por debaixo dessa diversificada maquiagem há uma crosta pálida, sem cor e sem brilho. Por sinal, também não há ninguém aqui. Caso houvesse o mundo seria diferentíssimo. Os que por aqui e por ali caminham não podem ser chamados de alguéns. Eles não têm mais alma, nem desejo, vagueiam como vazios. Não estão interessados em nada, nem sequer querem saber o porquê. Suas mentes estão ocas, e através delas ecoa o vento. Eu, ao passar perto deles, sinto que também sou um vazio.      Deve ter havido uma catástrofe. Talvez tudo tenha começado com um gigantesco cataclisma. Algo deu errado e então tudo começou. Esse planeta, esses ninguéns, essa palidez no ar e no rosto de todo mundo, esse horizonte sem esperança. É possível que os demônios da criação tenham se equivocado totalmente. erik rosa

Poeira da ampulheta

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Havia e não há mais. Tão impossível quanto necessário, havia e não há mais. Aqui imóvel tentando e tentando entender. O que significa? Antecipo na parte mais mole da minha consciência o dia em que partirei daqui para sempre, varrido como poeira pra lugar nenhum – onde? Para tempo nenhum. Oh, não! A minha tendência mais insistente – evidência da minha fraqueza – de querer que tudo permaneça, da maneira que for. seja em escombros e ruínas, mas que, por favor... tudo permaneça! Havia um dia. Não há mais. Quando chegar a hora que haja um epitáfio. Confusão será o meu epitáfio? Perdição! Amarrado pelos pés à obrigação de pensar e remoer sobre esse dia que não há mais. O quanto mais tardarei em abandonar a esperança e esse medo que sinto do tempo? Não é possível deixar de senti-los, são a mesma e única coisa a esperança e o medo, e estão enterrados profundamente em meu coração. Chegará o dia e o que fazer? Quando viro o rosto e encaro o passado somente observo alguém que sempre caminhou sem ...

o cheiro do bolo da vizinha da gaveta seis

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     A janela do meu quarto, no quarto andar do prédio quatro da rua cinco de maio, não existia. Nem porta existia. Mais certo seria dizer que eu vivia em uma gaveta, daquelas que exibem com ganância comercial os vendedores de guarda-roupas de quatro portas com cinco gavetas para meias e roupas íntimas. Como se houvesse em mim intimidade suficiente para guardar.       Talvez há. Com o calor que faz aqui dentro não mais reconheço meus contornos. A vizinha da gaveta três grita que lhe preservem os limites. Eu não entendo. Antes de acordar aqui eu dormia em uma cama, nada de conforto mas havia refeição. Havia atenção. E por isso regresso às horas em que, nas ruas, janelas e portas, pessoas sorriam - dentes e bocas à mostra, sem medo.      Não, não faz tanto tempo e os comerciantes de dobradiças ainda vendiam dobradiças. E os chaveiros ainda recebiam ligações de trabalho. As gentes ainda usavam correntes nos braços e pescoço, por ornamento o...

Sobre impermanências

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Você emerge em mim, como há muito tempo já fez mas agora em outro ritmo Dessa vez não te dou nada nem busco coisa alguma e assim eu aprendo a suavidade das escolhas Eu já não te devoro como antes apenas vou criando, pois se fico é porque aprendo o instante Não há o passado e o futuro de nós às vezes isso me assusta contudo, é esse único instante que nos une E eu me pergunto das outras criaturas seremos todos assim: filhos de um momento que não cessa? Jesline Cantos

Disfarce

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Pobre de ti que não me olha nos olhos e perde o peso o sonho, a nuvem escândalo subterrâneo jazigo do meu eu Pobre de ti perde a passagem do meu encanto carinho quase meu Pobre de ti que não tem rosto nome capacitação Pobre de ti que é o que vejo saldo da minha imaginação momento presente Jesline Cantos