Aranha

Ele carrega consigo uma aranha como mochila. Firmemente abraçada em suas costas, ela é sua bagagem, sua história. Não porque ele quer. O fato bizarro de possuir um monstro pregado em seu corpo lhe dá calafrios. Ele apenas não sabe tirá-la dali. Se soubesse tiraria, a deixaria bem distante. Se tivesse coragem de tocá-la, a abandonaria dizendo que não ajuda em nada, que somente atrapalha, que lhe causa repugnância a sua aparência, o seu toque, o seu peso. A deixaria em qualquer canto do mundo, contanto que fosse fora de vista. Ele, quem sabe, até mesmo já tenha sonhado com isso. Um devaneio sobre viver uma vida sem aranha-mochila onde pudesse repousar em qualquer posição para poder aliviar o seu cansaço. Contudo, mesmo nos sonhos a abandonada volta. O persegue. Sua rapidez com que retorna cria uma imagem horripilante. A aranha-mochila não suporta a ansiedade de sua separação, tão logo é pensada longe, já está novamente abraçada nele. Ele se pergunta como e quando isso começou. Levanta questões sobre em que lugar pode ter ido a ponto de parar acorrentado a uma aranha irredutível dessas. Reflete se existem outras aranhas como essa em outras pessoas, se existem melhores aranhas… ou piores. É possível, ele pensa, afinal elas estão por todos os lados. De certa forma, ele está se obrigando a se acostumar com a situação. Está assim a tanto tempo que não parece que haverá alguma mudança. Nunca está sozinho. Ao contrário do que ele gostaria, a aranha-mochila nunca o abandonou, pelo contrário. Parece que ela só está bem quando colada em suas costas. Quanto mais ele deseja que ela o rejeite e siga com sua vida de aracnídeo, mais junto ela fica. A aranha é uma companhia difícil para ele. Feia demais, grande demais, perto demais. A mais obscena das carências. 

Essa vida o desgasta. Ele gostaria de um tempo. A sós. Não sabe se é possível. 


erik rosa




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