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Disfarce

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Pobre de ti que não me olha nos olhos e perde o peso o sonho, a nuvem escândalo subterrâneo jazigo do meu eu Pobre de ti perde a passagem do meu encanto carinho quase meu Pobre de ti que não tem rosto nome capacitação Pobre de ti que é o que vejo saldo da minha imaginação momento presente Jesline Cantos

A muitos passos daqui

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    Breve parada sentado numa grande pedra para recobrar o fôlego. Você sente a secura colando a garganta e deseja um pouco d’água. Irremediavelmente, você sempre se esquece de levar uma garrafa consigo. Calor infernal e seus pés derretendo no asfalto. Você imagina o quanto deste velho solado do tênis tem sido gasto por você nessas andanças. Quantos solados. Nessas andanças. Raciocina que o calor do sol é um agravante para o desgaste do solado no asfalto e que ele também tem alguma culpa. Culpa de gastar os solados. A quantas você poderia ter andado de maneira a não sentir culpa?      Fôlego recobre-se. Ossos em riste. Você caminha. A quantas poderia ter andado de maneira a não desgastar tanto os ossos? Reflete que o calor do sol ameniza o desgaste dos ossos e que ele não tem culpa nenhuma. Conta os passos e se pergunta quantos já foram dados até ali, imaginando que deve haver alguém no mundo que realmente conta os passos à sério. A cidade em forma de U faz da s...

Escorrência

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Há qualquer coisa que foge de nós Esse algo impalpável que não ouso dar nome Diria um Isto, mas é pior que a identidade o universalizar. Há duas ou três ou quatro durezas, mentira Menti Não sei e nem quero contabilizar quanta dor a coisa me causa No entanto, sinto Crueza. Ao que reajo por medo sei que invento a Coisa que me amedronta Mas o que há entre uma coisa e outra? O que é essa coisa que não sei e não ouso invocar? Há algo de mim na fuga? Sou mais fugidia do que aquilo que me foge? Erro, dou nomes porque se não o faço não consigo comunicar a Outros Mas não quero. Há qualquer coisa que ainda foge de nós Um algo que diante fico perplexa O que é isso que não passa pelas minhas mãos nem diante de meus olhos? E se pressinto já sei? Ou se sonho não sei? O que é Isto, que busco e nunca me lembrei? Há algo. A espera é que me irrompe aos meios. Jesline Cantos

Do som das palavras...

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    Um violino com o seu ritmo suavemente cadenciado soa e ressoa em meus ouvidos, fazendo surgir um desejo inalcançável de escrever palavras vivas que se movimentem e que dancem conforme a música. Uma perfeição incompatível com as coisas do mundo atravessa lentamente o meu espírito, e por uns instantes fecho os meus olhos, impeço a luz e permito haver um pequeno império musical. À medida que os segundos passam e a música avança, as minhas mãos percebem que as marcas deixadas por elas no espaço em branco quase não possuem pernas e mãos para se deslocar, e então acontece de súbito uma tristeza, um mero lamento diante à vontade de escrever palavras vivas que saibam dançar. Sempre desconfiei que a notas musicais chegassem mais longe em seus anseios do que as sílabas e as letras, que haveria uma lacuna de movimento num texto escrito que as palavras jamais saberiam preencher ou compensar, e que por isso só restaria às letras descrever e detalhar as suas próprias lamúrias alfabética...

Os largos e vigorosos passos

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        Os largos e vigorosos passos se esquivam das poças de água e barro na calçada. A chuva desaba transformando o dia em escuridão noturna. Guarda chuva numa mão e criança pequena num braço. Sobressalto, desvia de um buraco dissimulado. A fraca luz das nuvens mergulha na solidão da lama à medida em que a moça se aproxima da entrada da prisão. Surpresa pela criança ainda não ter chorado em razão do frio, ela encontra um motivo de alegria enquanto entra no prédio e espera pelo encontro sentada numa cadeira de plástico marrom. Luz artificial e paredes de leite fazem brilhar mais forte as gotas transparentes em seu casaco fino. Uns dedos molhados fazem-se sentir por dentro das meias brancas. Uma toalha macia aparece voando ao seu lado para enxugar a cabeça do menino. Ela agradece e enxuga. Espera. Olha para o menino e para o abismo de ser mãe. Espera. Lê-se Sala de Espera. Ela se perde em sons de vozes graves e agudas.         ...

Ao que vai nascer

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          As luzes estão todas elas acesas para você. Vá em frente, o caminho está totalmente iluminado. Não há possibilidade de erro, pode confiar em mim de corpo de alma. Aqui não trabalhamos com erros e não os admitimos, está tudo certo e no seu lugar funcionando perfeitamente bem. Engatilhamos tudo para que você possa brilhar por tempo indeterminado. Você só está começando e brilhará eternamente. Sim, você nunca morrerá aqui. A morte não é possível porque aqui nada é impossível. Veja, as manhãs estarão todas maravilhosamente radiantes diante de você e haverá doçura sempre ao acordar. A grama de um verde estonteante, as noites fantásticas e de sorrisos infinitos, a reunião de tudo o que é desejável e prazeroso em apenas uma vida. Imagine, haverá certeza, eu lhe garanto. Daqui para frente pode assegurar-se sem receio sobre o que você pensa porque não haverá nenhum problema, estamos aqui para garantir que as dúvidas passem longe de você. Não trabalhos com ...

2017

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Observo um pássaro que caminha no chão à minha frente, se ele pode voar a caminhada deve ser uma piada. A liberdade de poder riscar o céu com seu corpo e depois caminhar no chão pata por pata. Se eu soubesse voar, seria um incômodo fazer isso. Mas ainda bem que o passarinho não vê graça em nada e vive sua vida de ser o que é. Eu, no entanto, estou aqui e questiono essa cena. É como quando abri os olhos e não sabia onde estava e aquela festa acontecia com muita gente dançando e eu ali. Não, a questão é que nenhuma das duas coisas têm sentido em comum. Agora é quase noite, atordoada minha mente tenta me fazer esquecer algo no meu caminho no hoje. Daria quase tudo por uma distração barata que me deixasse esquecida. Caminho e olho alguns amigos rindo com alegria e tenho medo disso. Como tanta ingenuidade ao pensar que se pode rir? Não nesse dia. Não quando tudo é motivo para silêncio e esquecer, esquecer, esquecer. Se eu fosse um pássaro não teria sofrido o que me aconteceu. Ou se eu fosse...

Para se ler amanhã

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Os textos a seguir foram produzidos a partir do Desafio de Escrita idealizado por Andréia Pires, editora da Concha Editora. 01 | Ponto de Partida De todos os aprendizados que a vida me levou a experienciar, o que tenho carregado sempre na ponta da língua, pronto para dizer a quem perguntar, é o aprendizado da sensibilidade. Creio que no íntimo a vida não me ensinou nenhuma verdade sobre ela mesma, não chegará o ponto em que me presenteará com a resposta que tanto busco; porém, o que ela incessantemente tem me feito enxergar é que é preciso que eu esteja sensível aos seus toques. Se o Erik de uns tempos atrás chegava, em muitas ocasiões, a um estado profundo de indiferença para com a vida, hoje me permito dizer que há muito no mundo que me faz sorrir e chorar. A vida, não a ideal, mas a propriamente vivida me ensinou a ser sensível, a ser afetado por ela. Certa vez escrevi que a existência poderia ser valorada em termos da sensibilidade daquele que existe: se tu sentes, tu vives; se não...

Mil pesos, uma medida

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     Sou demais e sinto demais. Condenado a ser o herdeiro de tudo o que deixaram aqueles que viveram antes de mim, herdei as mais nobres formas já criadas e tudo o que um dia foi considerado o ápice espiritual do ser humano, assim me tornando o fruto, resultado de todas as coisas cultivadas como belas e boas. Herdei também toda a exuberância da crueldade dos meus póstumos e trago comigo a mortificação de todos os lascivos que já mancharam este mundo. Eis que eu, filho legítimo e descendente direto dos erros e acertos humanos, tenho como único destino ser, enquanto vivente, responsável por toda a humanidade, o baú sagrado onde se depositam todas as esperanças e medos, enquanto compartilho da alegria simples dos mais pobres e da melancolia opaca dos abastados. E sendo o responsável, cabe a mim atravessar os limites do mal e do bem até o ponto onde eles se chocam e confundem-se. Resta a mim dizer quem fomos, quem somos e o que seremos. Inventar a medida e medir o mundo, de...

Árido

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Uma pequena dificuldade de engolir sabe-se lá o que? Sabe-se alguma coisa… Eu, nem sei do que se trata Sou? Acho que já seria demais Um mistério entrecruza a passagem Mistério tenebroso, obscuro, mórbido angústia? Nem verdadeira angústia Momento discreto e indescritível Medíocre em infinitos modos vazio de potência? Nem assim o descrevo árido, sem inspiração Nem desespero, nem esperança desamparo? Talvez, mas nem chega a isso Uma impermanência bate a porta como sempre bate… Mas há um medo dela do que pode surgir da ausência da falta de representação que venha, que as palavras falhem… Filipe Zoppo